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21/10/2025
10min

Os 7 Dogmas do Agile: A Fé Cega Que Matou a Engenharia

Descubra os 7 dogmas do Agile que transformaram metodologia em culto corporativo: fail fast, daily standups, autonomia falsa e mais. A verdade brutal que todo desenvolvedor precisa ler.

Os 7 Dogmas do Agile: A Fé Cega Que Matou a Engenharia

Toda religião nasce de uma boa intenção. O Agile também.

Em fevereiro de 2001, dezessete desenvolvedores se reuniram num resort em Snowbird, Utah, e escreveram o Manifesto Ágil. Eram 68 palavras. Quatro valores simples. Uma reação contra a burocracia insana do waterfall dos anos 90, onde projetos levavam três anos pra entregar um software que já nascia obsoleto.

O manifesto era sobre pessoas, não processos. Sobre software funcionando, não documentação de 500 páginas. Sobre responder a mudanças, não seguir um plano cegamente.

Não tinha nada ali sobre sprints obrigatórias. Nada sobre dailies de 30 pessoas. Nada sobre renomear cargos, contratar consultoria de milhões, ou certificar gente que nunca escreveu uma linha de código.

Mas aí chegou o corporativismo. E como tudo que o corporativismo toca, o Agile virou exatamente aquilo que jurou destruir: um sistema de controle travestido de liberdade.

Hoje, segundo o 17º State of Agile Report de 2023, 84% das empresas dizem praticar Agile. Mas 70% das transformações falham. 47% admitem que "não entregou os benefícios esperados". Só 12% consideram a transformação bem-sucedida.

E tem mais: um estudo de 2024 com 600 engenheiros descobriu que projetos que seguem o Manifesto Ágil têm 268% mais chances de falhar do que projetos tradicionais.

Deixa isso afundar. A metodologia criada pra melhorar o desenvolvimento de software agora é um fator de risco.

Como isso aconteceu? Simples: o Agile virou dogma. E dogmas não precisam funcionar. Só precisam ser repetidos.


1. Fail Fast — O Dogma do Fracasso Administrado

"Fail fast" é vendido como mentalidade de aprendizado. Experimente rápido, falhe cedo, aprenda, itere. É lindo no pitch. É a narrativa de toda startup.

Na prática, é só uma forma elegante de dizer: "erre tudo rápido pra ninguém perceber que ninguém sabe o que está fazendo."

Porque não existe aprendizado quando o sistema inteiro foi desenhado pra te culpar pelo incêndio. O "fail fast" não acelera o descarte de ideias. Acelera o descarte de gente.

Dan Pontefract escreveu na Forbes em 2018:

"Quando executivos instituem um mantra de 'fail fast, fail often', eles devem garantir que não seja às custas do pensamento criativo ou crítico. Caso contrário, é apenas tolice."

E o ciclo se repete: erro, reunião, slide, post-mortem que ninguém lê, nova sprint. O que muda? Nada. Mas a empresa ganha aquela sensação reconfortante de movimento.

Teatro Agile: "Fail fast" vira desculpa pra falta de planejamento. Erros são punidos veladamente. Você não é promovido, é marcado como "difícil".

Agile de verdade: Experimentos têm hipóteses claras. Falhas são discutidas sem culpa. Post-mortems geram ações concretas, não PowerPoints esquecidos.


2. Time Autônomo — O Mito da Liberdade Sem Poder

Toda empresa que precisa declarar que seus times são autônomos está admitindo o contrário. Autonomia não é valor de slide. É poder real de decisão.

O dev é "dono do problema", mas nunca do orçamento. Nunca do roadmap. Nunca da prioridade. A cada sprint, ele carrega a culpa pelo que não decidiu, enquanto líderes postam sobre empowerment no LinkedIn.

A autonomia do Agile corporativo é um espelho retrovisor: mostra liberdade enquanto você anda na direção contrária.

E olha, isso não é teoria conspiratória. Joakim Sundén, que foi Agile Coach no Spotify, admitiu em 2020:

"Se eu pudesse fazer uma coisa diferente, diria que não deveríamos ter focado tanto em autonomia. Cada vez que você tem um novo time, eles precisam reinventar a roda sobre como trabalhar."

Ele estava falando do Spotify. A empresa que virou sinônimo de "times autônomos". E até eles reconhecem que autonomia sem alinhamento é caos.

Teatro Agile: "Você é dono do problema" mas precisa de três aprovações pra mudar uma biblioteca. Autonomia está no PowerPoint, controle está na prática.

Agile de verdade: Time decide como trabalhar, quando entregar (dentro de constraints razoáveis), quais tecnologias usar. E pode dizer "não" a demandas impossíveis sem ser marcado como "resistente".


3. Daily Standup — O Confessionário Corporativo

Chamam de "alinhamento diário". Mas o que acontece ali é vigilância.

Trinta segundos pra dizer o que fez, o que vai fazer, o que te impede. O microgerenciamento perfeito: travestido de colaboração.

Yegor Bugayenko, desenvolvedor e autor, escreveu em 2015:

"Um bom gerente nunca deveria ter dailies. Porque elas não apenas 'não funcionam', mas fazem coisas muito ruins, às vezes catastróficas, ao seu processo de gestão."

A tese dele: dailies são pra gestores que não sabem organizar comunicação assíncrona. Que não confiam no time. Que precisam da sensação de controle diário pra dormir tranquilos.

E não é só ele. No Reddit (r/careerguidance), desenvolvedores relatam consistentemente: dailies de 45 minutos. Gestores corrigindo planos individuais publicamente. Foco em status report pra cima, não em blockers horizontais.

A daily não é pra resolver problema nenhum. É pra ver quem ainda tá obedecendo.

Teatro Agile: Daily dura 45 minutos. Gestor usa pra status report. Corrige planos individuais. Presença obrigatória mesmo sem blockers.

Agile de verdade: Daily dura 10-15 minutos. Time usa pra identificar impedimentos. Gestor facilita, não controla. Presença é opcional se não há nada bloqueando.


4. Entregas Contínuas — O Culto do Inacabado

A promessa era entregar valor de forma contínua. O que nasceu foi o MVP eterno — produto que nunca chega, sempre "em validação".

"Lança assim mesmo, depois a gente melhora."

Mas o depois nunca chega.

A pressa matou a engenharia. E agora a mediocridade é chamada de "iteratividade". MVP virou sinônimo de "produto quebrado que a gente justifica como validação".

Teatro Agile: "Lança assim" vira mantra. MVP é produto quebrado. Débito técnico cresce infinitamente. "Iterativo" significa reescrever sempre porque o código é uma gambiarra.

Agile de verdade: Incrementos são pequenos mas completos. MVP é a menor versão que entrega valor real, não a menor versão que compila. Débito técnico é gerenciado, não acumulado até o colapso.


5. Cliente no Centro — O Álibi Perfeito

O "cliente" virou escudo retórico. Tudo é decidido em nome dele — até o que ele nunca pediu.

O Agile transformou o usuário em justificativa pra toda forma de abuso operacional: prazo impossível, sprint de 80 horas, release sem QA, demo sem produto funcionando.

Ninguém mais serve ao cliente. Todo mundo serve à narrativa de que o cliente está no centro.

Pergunta honesta: quando foi a última vez que um usuário real participou de uma sprint planning? Quando foi a última vez que feedback de cliente mudou uma prioridade já definida pela liderança?

Teatro Agile: "Cliente" é usado pra justificar qualquer decisão arbitrária. Nenhum usuário real participa do processo. Personas inventadas substituem pesquisa.

Agile de verdade: Usuários participam de testes, validações, demos. Decisões são baseadas em feedback real, não em suposições. Métricas de sucesso são sobre valor pro usuário, não velocidade de sprint.


6. Feedback Constante — O Teatro da Escuta

Reuniões de feedback são o confessionário do novo mundo ágil. Você fala. Eles anotam. Nada muda.

O ciclo é previsível: feedback, plano de ação que ninguém lê, retro, nova promessa que ninguém cumpre.

Não há comunicação. Há manutenção da ilusão de transparência.

A honestidade virou ameaça. Quem diz a verdade é "difícil de lidar", "não tem fit cultural", "não é team player". Quem se cala, é promovido.

A BCG pesquisou em 2022 e descobriu que cerca de 70% das transformações falham. E um dos motivos? Times ágeis querem dados pra priorizar trabalho e medir sucesso, mas raramente os recebem.

Teatro Agile: Feedback é coletado e ignorado. Retros viram desabafo sem mudança. Honestidade é punida veladamente. Mesmos problemas aparecem em toda retro.

Agile de verdade: Feedback gera ações concretas em até 2 sprints. Quem dá feedback honesto não sofre consequências. Liderança participa e responde, não apenas "ouve".


7. Agilidade É Cultura — O Dogma Final

Quando a metodologia falha, o último refúgio é a fé. "Agile é cultura", dizem.

Mas o que chamam de cultura é condicionamento. Um sistema que pune o cético, exalta o conformado e transforma mindset em ferramenta de controle.

O dev que questiona vira problema. O gestor que repete as palavras certas vira exemplo. E a organização continua performando agilidade sem nunca ter sido ágil.

Até a própria comunidade Agile reconhece isso. A Scrum.org escreveu em 2024:

"Um dos fantasmas do passado Agile é o dogmatismo. Todos nós encontramos aqueles que aderem rigidamente a uma ideia, independentemente dos dados e da experiência."

E LeadingAgile questionou em 2019:

"Alguns Agilistas estão começando a experimentar retornos decrescentes. Talvez seja hora de começar a questionar o dogma Agile."

Teatro Agile: Questionar o processo te marca como "não-ágil". "Mindset" é usado pra silenciar críticas. Conformidade é valorizada acima de resultados. Certificações importam mais que prática.

Agile de verdade: Questionar é encorajado. Princípios são debatidos abertamente. Resultados importam mais que ritual. Prática importa mais que títulos.


O Que Fazer?

Se você se reconheceu neste artigo, não está sozinho. 70% das transformações Agile falham. Milhares de desenvolvedores vivem isso todo dia.

Mas dá pra fazer algumas coisas.

Se você é dev:

Documenta as disfunções. Não emocionalmente — com dados. Tempo médio de dailies. Decisões bloqueadas e por quanto tempo. Promessas de retros não cumpridas. "Dailies duram 45min em média" é mais forte que "dailies são longas".

Foca em entregar valor apesar do processo. O processo pode ser teatro, mas seu código não precisa ser. Mantém padrões altos. Quando tudo desmoronar (e vai), você vai ser o dev que entregava qualidade apesar do caos.

Busca aliados. Outros que veem o teatro. Vocês não estão loucos. Cria espaços informais pra discutir o que realmente funciona.

Propõe experimentos pequenos. "E se testarmos daily 2x/semana por um sprint?" Mudanças incrementais assustam menos que revoluções.

E sabe quando sair. Se nada muda após tentativas documentadas, o problema é sistêmico. Você não vai consertar sozinho. Ambientes saudáveis existem.

Se você é líder técnico:

Protege seu time do teatro. Filtra reuniões desnecessárias. Seu papel é escudo, não amplificador.

Cria segurança psicológica real. Não apenas declara. Demonstra: quando alguém erra, você protege ou pune? Alguém já disse "não sei" ou "errei" sem consequências? Se não, não há segurança. Há medo silencioso.

Questiona rituais vazios. "Por que fazemos isso?" é a pergunta mais poderosa. Se a resposta é "porque é Agile", não é razão suficiente.

Se você é gestor (e quer mudar):

Diferencia princípio de processo. Agile é sobre adaptação. Se seu "Agile" é rígido, não é Agile.

Mede valor, não cerimônias. "Quantas sprints completamos?" é métrica de teatro. "Quanto valor foi entregue ao usuário?" é métrica real.

Dá autonomia real. Autonomia = poder de decisão + recursos + responsabilidade. Se falta qualquer um dos três, é autonomia falsa.

Tolera falhas de verdade. Se ninguém falha, ninguém está experimentando. Se todos "falham" mas ninguém aprende, é teatro.


Epílogo

O Agile não é uma metodologia. Não é cultura. Não é mentalidade.

Hoje, o Agile é um sistema de controle psicológico com linguagem inclusiva.

Ele cria a ilusão de escolha, a sensação de movimento e a certeza de culpa. No teatro da agilidade, o único personagem substituível é o engenheiro. E o público aplaude, achando que está inovando.

Você, dev, ainda acredita no roteiro?

Ou já percebeu que é só o combustível da máquina — o corpo que queima pra manter o sonho dos outros aceso?

Se essa pergunta te incomoda, ótimo. Significa que ainda existe lucidez.


Se você se identificou com esta análise e quer ir mais fundo, o livro "AGILE: A Mentira da Indústria de Software" vai além. Duas décadas de experiência destiladas em verdades que ninguém tem coragem de dizer em voz alta. Mais de 10 mil desenvolvedores já leram. Talvez esteja na hora de você descobrir por que o teatro nunca vai mudar — e o que fazer com isso.


Perguntas que Sempre Aparecem

O Agile é sempre ruim?

Não. O Agile original, o Manifesto de 2001, tinha princípios sólidos. O problema é quando vira dogma corporativo, onde a forma substitui a substância. Quando cerimônias importam mais que entrega de valor. Quando questionar te marca como herege.

Como saber se minha empresa virou teatro Agile?

Alguns sinais: autonomia é declarada mas você precisa de três aprovações pra decidir qualquer coisa. Dailies duram mais de 15 minutos e viram status report. "Fail fast" é usado pra justificar falta de planejamento. Feedback é coletado mas nada muda. Questionar o processo te marca como "não-ágil".

Se você reconhece três ou mais, não é Agile. É teatro.

Qual a diferença entre Agile genuíno e Agile dogmático?

Agile genuíno foca em princípios e adapta práticas ao contexto. Questionar e ajustar o processo é encorajado. Resultados importam mais que conformidade.

Agile dogmático impõe práticas como rituais inquestionáveis. Questionar é resistência. Conformidade é valorizada acima de resultados.

Fail fast realmente não funciona?

Funciona quando há aprendizado real, segurança psicológica e tolerância genuína a falhas. Falha quando vira desculpa pra falta de planejamento, quando erros são punidos, quando "rápido" significa "sem pensar".

O problema não é o conceito. É a implementação hipócrita.

Daily standup sempre é microgerenciamento?

Não sempre. Vira microgerenciamento quando dura mais de 15 minutos, vira status report pro gestor, gestor corrige planos individuais, foco é controle ("o que você fez ontem") em vez de colaboração ("o que te impede hoje").

Daily saudável é rápida, focada em blockers, facilitada pelo time (não pelo gestor), e presença é opcional se não há impedimentos.

Como identificar autonomia real vs. falsa?

Autonomia real tem três componentes: poder de decisão, recursos pra executar, e responsabilidade pelas consequências.

Autonomia falsa: você é "dono do problema" mas não do orçamento, roadmap ou prioridades. Decisões técnicas precisam de múltiplas aprovações. Autonomia é revogada quando decisões desagradam.

Teste simples: o time pode dizer "não" a uma demanda impossível sem consequências? Se não, não há autonomia real.


Referências

  1. Beck, K., et al. (2001). Manifesto for Agile Software Development
  2. Digital.ai. (2023). 17th State of Agile Report
  3. DRJ. (2024). 268% Higher Failure Rates for Agile Software Projects
  4. Pontefract, D. (2018). The Foolishness Of Fail Fast, Fail Often.
  5. Bugayenko, Y. (2015). Daily Stand-Up Meetings Are a Good Tool for a Bad Manager
  6. Lee, J. (2020). Spotify's Failed #SquadGoals
  7. Scrum.org. (2024). Ghosts of Agile Past: Dogma!
  8. LeadingAgile. (2019). Questioning Agile Dogma
  9. BCG. (2022). What Employees Say About Agile Transformations
Benjamim Castell

Benjamim Castell

Autor & Criador do Manifesto Anti Ágil.